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“Todas as pessoas que procuram apoio, procuram na verdade um espaço onde possam ser elas próprias”

A psicóloga Eduarda Figueiras conhece bem o padrão das pessoas que avançam durante anos a funcionar, mesmo não estando bem, convencidas de que pedir ajuda é admitir fraqueza. Nesta entrevista, fala dos sinais que o quotidiano vai normalizando e do que muda quando, em consulta, a pessoa encontra um espaço onde pode ser quem é.

Eduarda, na sua experiência clínica, quais são os sinais mais subtis de desgaste emocional que as pessoas tendem a normalizar no dia a dia, e que acabam por adiar um pedido de ajuda?

Com base na minha experiência clínica posso dizer que um dos principais sintomas do desgaste emocional é o cansaço persistente. Aquele que teima em não passar mesmo com alguns dias de descanso e mesmo quando passamos mais tempo do que o normal a dormir. Este cansaço é acompanhado por uma sensação de “cabeça cansada/pesada” logo ao acordar.

A irritabilidade também aumenta, fazendo com que pequenas situações do dia-a-dia se tornem motivo de frustração e raiva. Outro sinal importante é a perda de interesse em atividades que antes eram sinónimo de prazer para a pessoa. Em consulta ouço muitas vezes a pessoa expressar “hoje não me apetece” mesmo quando é convidada para algo que anteriormente lhe fazia ficar em êxtase.

O corpo também manifesta sinais, como tensão muscular, dores de cabeça ou aperto no peito, frequentemente atribuídos a causas físicas quando podem refletir desgaste emocional. Além disso, muitas pessoas começam a isolar-se gradualmente, respondendo menos, cancelando planos ou preferindo ficar sozinhas.

Quando as pessoas tentam gerir sozinhas ansiedade ou stress, que padrões de erro ou autoengano surgem com mais frequência?

Quando as pessoas tentam lidar sozinhas com a ansiedade ou o stress, é comum surgirem alguns padrões de erro que acabam por aumentar o mal-estar. Em consulta, frequentemente, ouço a pessoa dizer “não procurei mais cedo ajuda porque pensei que isto não era nada” ou “pensei que ia passar com o tempo”. Muitas vezes, para lidarem sozinhas com a ansiedade e o stress, entram num ciclo de evitamento. Ocupam-se com distrações, adiam as tarefas que geram ansiedade ou evitam conversas difíceis para não enfrentarem o que sentem.

Por outro lado, a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza ainda é bastante comum. Além disso, a pessoa pode comparar-se com os outros, o que faz com que pense que apenas ela sente tais emoções e sentimentos. Por fim, muitas pessoas confundem o estar funcional com o estar bem e feliz.

“Um dos principais sintomas do desgaste emocional é o cansaço persistente”

Fala frequentemente da importância da prevenção. Que pequenas práticas concretas, sustentáveis no quotidiano, fazem efetivamente diferença antes de surgir sofrimento mais estruturado?

A prevenção emocional não depende de grandes mudanças, mas sim de pequenas práticas consistentes que ajudam a manter o equilíbrio no nosso dia-a-dia. Lembro sempre os meus clientes que o básico tem de estar bem feito. Então, o ser humano tem de garantir desde início que tem uma boa higiene do sono, uma alimentação saudável e equilibrada e que pratica atividade física.

Além disso, existem outras mudanças importantes como a existência de pausas reais ao longo do dia. Organizar o dia de forma realista, reduzindo tarefas em excesso também ajuda a prevenir momentos de desgaste emocional. Outra prática importante é manter contacto regular com a nossa rede de amizades. Por fim, é essencial observar o próprio estado emocional com honestidade.

No contexto profissional, que sinais indicam que uma equipa ou organização está a entrar num padrão de ansiedade, desgaste ou até toxicidade emocional?

No contexto profissional, há sinais claros de que uma equipa está a entrar num padrão de ansiedade ou desgaste emocional. As pessoas começam a falar menos, evitam partilhar problemas e comunicam apenas o essencial. Surge também uma sensação de urgência, onde tudo parece crítico. Pode começar a existir dificuldade para expressar diferentes opiniões. As pessoas deixam assim de sugerir ideias, têm medo de errar e passam a trabalhar apenas para “não criar problemas”.

Também é comum notar um cansaço generalizado, onde existem mais erros e o aumento de faltas ao trabalho e de baixas médicas. Quando o ambiente se torna mais tóxico, aparecem comportamentos como favoritismos, críticas constantes ou falta de transparência.

A partir dessa leitura, que medidas simples, mas consistentes, podem líderes e organizações implementar para melhorar o ambiente emocional e a qualidade das relações de trabalho?

Para melhorar o ambiente no trabalho, os líderes podem apostar em medidas simples. Uma das mais importantes é a existência de espaços de comunicação, onde os colaboradores se sintam seguros para partilhar dúvidas, dificuldades ou ideias. Outra medida essencial é definir expectativas realistas. Os líderes devem promover momentos de pausas e ritmos de trabalho saudáveis.

Valorizar o trabalho das pessoas é outro ponto-chave. Reconhecer esforços e dar feedback construtivo reforça a motivação. Respeitar horários, comunicar com respeito, admitir erros e mostrar humanidade cria um ambiente onde todos se sentem mais seguros.

“Muitas vezes, para lidarem sozinhas com a ansiedade e o stress entram num ciclo de evitamento”

Quando esse limite é ultrapassado, seja no plano individual ou no contexto profissional, e a pessoa decide procurar apoio, entra num espaço de escuta e confiança. Porque é que esse espaço é tão importante e o que pode permitir trabalhar que, no dia a dia, acaba por ficar adiado ou silenciado?

Todas as pessoas que procuram apoio, procuram na verdade um espaço onde possam ser elas próprias com as suas vulnerabilidades. Quando a pessoa que pede ajuda encontra esse espaço protegido, pode falar com honestidade sobre aquilo que sente, sem medo de parecer fraca.

É neste ambiente que trabalhamos o que muitas vezes fica silenciado durante anos: preocupações acumuladas, emoções que foram sendo empurradas para o lado, conflitos internos, dúvidas e medos. A escuta ativa ajuda a organizar pensamentos e a dar nome ao que está a acontecer. É nesse espaço que a pessoa pode refletir com calma, ganhar clareza e encontrar novas formas de lidar com o que a está a desgastar.