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Uma vida dedicada a quem mais precisa

Distinguida na 1.ª Gala dos Farmacêuticos com o Prémio Intervenção na Comunidade, Manuela Pimenta viu o seu percurso na área farmacêutica e trabalho humanitário serem reconhecidos publicamente. A cerimónia teve um forte valor simbólico, não só pelo que representa, mas também pelo regresso a Coimbra. À IN Corporate Magazine, revisita esse caminho e os desafios que continuam por cumprir.

A Manuela é filha de dois farmacêuticos especialistas em análises clínicas e, anos mais tarde, seguiu-lhes as pisadas, não só na profissão, mas também através da fundação da Associação Hemato Pa Bô. Tendo em conta esta trajetória, qual considera ser a sua grande missão?

Tenho duas grandes missões na vida: colocar a ciência ao serviço da vida e ser mãe de um mundo melhor. Aprendi com o meu pai que “um laboratório não é um resultadório” e que os cuidados de saúde devem ser um direito universal. Um laboratório não entrega apenas resultados: orienta decisões e salva-vidas. Todos os dias.

A Hemato Pa Bô luta por um diagnóstico laboratorial de qualidade, sobretudo onde ele ainda é escasso, como em várias regiões de África. Se houver melhores condições locais, mais doentes poderão ser tratados no próprio país. Muitos esperam longos meses por autorização para viajar. Alguns morrem antes. Outros conseguem viajar, mas chegam tarde demais. A doença não espera por carimbos.

Aprendi na Guiné-Bissau, com as crianças internadas, o significado do verbo “esperançar”. Não é esperar. É manter viva a esperança através da ação. A minha missão? Continuar o legado dos meus pais e levá-lo para a comunidade que, para mim, é o mundo.

Foi premiada na 1.ª Gala dos Farmacêuticos com o Prémio Intervenção na Comunidade, numa noite descrita por si como “um Globo de Ouro”. Não sendo a primeira vez que conquista um reconhecimento destes, o que tornou este momento tão diferente e único?

Foi uma noite muito especial, ainda mais por ter acontecido em Coimbra. Foi lá que dei a minha primeira palestra e foi também lá que fiz a minha primeira especialidade, em análises clínicas. Voltar a Coimbra para receber este prémio teve um significado muito forte. Viajei até esse passado feliz. Só faltava o meu Pai.

A Gala foi fantástica. O Convento de São Francisco cheio, com mais de 400 farmacêuticos, um concerto do António Zambujo e tantos colegas que admiro. Mas depois houve aquele momento único, daqueles que acontecem uma vez na vida: a Catarina Furtado a entregar-me o Prémio Intervenção na Comunidade. Chamei-lhe o meu “Globo de Ouro”, porque, para mim, foi mesmo isso.

O que tornou este momento ainda mais emotivo foi ver o trabalho humanitário subir ao palco. Um trabalho que acontece tão longe, em estradas de terra batida, barcos sem condições, hospitais com poucos recursos e laboratórios precários.

Senti que aquele prémio não era só meu. Era do meu Pai, da Hemato Pa Bô, dos voluntários, da FirstPharma Solidária, das minhas colaboradoras, dos profissionais de saúde da Guiné-Bissau, dos Super-Heróis e dessa África tantas vezes esquecida.

Recebeu o prémio das mãos de Catarina Furtado. Tendo em conta que ambas defendem causas tão próximas, o que sentiu nesse encontro e o que gostava que pudesse nascer daí?

Ter a Catarina Furtado a entregar-me este prémio foi “o momento”. A Catarina traz as causas ao mundo. Dá-lhes voz, rosto, palco e visibilidade. Eu levo o mundo às causas. Levo ciência, diagnóstico, formação, medicamentos, equipamentos e pessoas para onde fazem muita falta.

Quando a Catarina me disse “vamos fazer coisas juntas!”, senti que podia ser uma porta a abrir-se.

Gostava que aquele “vamos fazer coisas juntas!” se transformasse em ação. Em algo grande que juntasse a força da voz da Catarina ao nosso trabalho no terreno.

Se ninguém falar, o mundo não acorda. Se ninguém fizer, o mundo não muda. Há encontros que não acontecem por acaso. E há frases que ficam a ecoar ad aeternum no nosso coração.

Vamos, Catarina. Claro que vamos fazer coisas juntas!

Podia não olhar para quem vive nestas circunstâncias de mortalidade materna e infantil e violência contra a mulher, mas escolheu intervir. É este o tipo de impacto que, na sua opinião, melhor representa a profissão farmacêutica?

Acredito que sim. Os farmacêuticos são profissionais de grande proximidade.

Na Guiné-Bissau, temos encontrado situações muito duras: crianças que morrem por falta de diagnóstico ou tratamento, mulheres que chegam tarde demais, grávidas sem cuidados básicos, profissionais com pouquíssimos recursos. Depois de vermos tudo isto, não conseguimos esquecer.

Eu podia ter escolhido não olhar. Mas não o fiz. Aos poucos, fui-me tornando voz de quem não a tem. Sou Embaixadora das Mindjeris que vendem no mercado.

Ser farmacêutica é juntar conhecimento à responsabilidade social. Para mim, o farmacêutico será sempre um guardador de vida.

Na mesma linha de pensamento, o que ainda falta à profissão, no nosso país, para ter um papel mais ativo na ajuda humanitária?

Falta reconhecer que a ajuda humanitária também precisa de farmacêuticos. E muito.

Quando se fala em missões humanitárias, pensa-se em médicos, enfermeiros, psicólogos e militares. Todos são fundamentais. Mas o farmacêutico tem competências essenciais para intervir com impacto na ajuda humanitária. Já realizei três missões na Guiné-Bissau com equipas só de farmacêuticos, através da FirstPharma Solidária, e o trabalho desenvolvido foi extraordinário. Estratosférico.

Falta criar estruturas para que os farmacêuticos possam participar de forma organizada e continuada, bem como mais formação e maior articulação com ONGD, universidades, ordens profissionais, associações e instituições de saúde. Os farmacêuticos já têm o essencial: vontade de ajudar.

Sabemos que tem feito várias palestras e que prevê realizar mais. Que papel acredita que estas poderão ter na transmissão desta mensagem às novas gerações?

As minhas palestras servem para semear inquietação boa. Para desassossegar. Quando levo a minha mochila vermelha e as minhas histórias para um auditório, não quero apenas comover. Quero convocar.

Conto histórias de pessoas que encontrei nas missões e que me marcaram. Às vezes, basta um nome, um rosto, uma história ou o sonho de uma criança. Uso linguagem crua e dura, tal como é a vida nestes lugares. Nada de números abstratos. Falo da dignidade de quem vive com muito pouco, mas nos ensina tanto.

Outras vezes, basta mostrar a minha “régua da vida” ou a lata de atum, para que a audiência queira partir em missão naquele momento.

Quero que as pessoas saiam diferentes de como entraram. Não necessariamente tristes, mas mais despertas. Mais disponíveis para agir. Mais humanas.

Lúcia Santos – Presidente da Secção Regional do Centro (SRC) da Ordem dos Farmacêuticos

Para além da sua carreira profissional, que mulher pretende ser na forma como influencia os outros?

Quero continuar a ser uma mulher de causas, que não passa ao lado e que escolhe agir pela dignidade humana. Quero inspirar pelo exemplo, honrar as minhas raízes e mostrar que uma pessoa comum, quando tem um propósito forte, pode esperançar e despertar nos outros a vontade de agir.

*Mindjeris – Mulheres

LAB: https://manuelpimenta.pt/
Farmácia de S Joao: https://fsj.pt/
Farmácia da Misericórdia: https://fmis.pt/
Associação Hemato pa Bô: https://www.instagram.com/hematopabo

Linkedin.com/in/manuelapimenta

Fotografias: © Ordem dos Farmacêuticos Secção Regional do Centro