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“O futuro do trabalho constrói-se por quem se atreve a liderar o presente”

Depois de mais de 15 anos a prestar serviço para algumas das maiores empresas tecnológicas do mundo, Carla Aguiar decidiu ajudar as PMEs a transformar a tecnologia em resultados concretos. A fundadora da Digital For You defende que a Inteligência Artificial só faz sentido quando simplifica processos, reforça a competitividade e liberta as pessoas para aquilo que nenhuma máquina consegue substituir. Nesta entrevista, explica por que razão a verdadeira transformação digital começa nas pessoas e na mudança de mentalidade.

Trabalhou durante mais de 15 anos para algumas das maiores empresas tecnológicas do mundo, passou pelo universo das vendas e decidiu agora concentrar toda essa experiência na Digital For You. Em que momento percebeu que queria ir além da venda de tecnologia e passar a ajudar as empresas a compreendê-la e a aplicá-la?

O momento de viragem aconteceu quando percebi que vender a melhor tecnologia do mundo não servia de nada se as pessoas não a soubessem usar no dia a dia. Ao longo de 15 anos no setor, assisti ao lançamento de ferramentas incríveis subaproveitadas por falta de acompanhamento prático. Percebi que o meu valor não estava em entregar software, mas em traduzir essa complexidade em produtividade real, eficiência e tranquilidade para quem gere um negócio.

A sua trajetória profissional afirmou-a como uma referência na área comercial e estratégica. O que a levou a focar-se no ecossistema de transformação digital e IA para PMEs? Que aprendizagens dessa experiência continuam hoje presentes no seu trabalho?

As PMEs em Portugal enfrentam um enorme hiato digital e escassez de tempo para testar e implementar inovações. A IA Generativa veio mudar este cenário: pela primeira vez, as PMEs têm ao alcance ferramentas com o impacto de grandes multinacionais, a custos acessíveis. Da minha experiência, trouxe a disciplina metodológica e a orientação para a resolução de problemas. A grande aprendizagem que aplico diariamente é a visão pragmática de que a tecnologia tem de servir o negócio e gerar resultados mensuráveis, não o contrário.

“As competências mais diferenciadoras serão as humanas: pensamento crítico, resolução de problemas complexos, liderança empática e comunicação com a IA”

A Digital For You nasceu com a ambição de “simplificar o digital” e “humanizar o negócio”. Na sua perspetiva, o maior desafio que hoje se coloca às empresas é tecnológico ou cultural? Porquê?

Sem dúvida, cultural. A tecnologia hoje é acessível, intuitiva e está ao alcance de qualquer empresa, independentemente da sua dimensão, o verdadeiro desafio está nas pessoas e nos hábitos instalados. Humanizar o negócio no contexto da IA significa perceber que as ferramentas digitais vêm libertar as equipas de tarefas mecânicas para se focarem no insubstituível: pensamento crítico, criatividade, empatia e relações humanas. Quando mudamos esta mentalidade, a adoção tecnológica passa a ser uma oportunidade.

Com a entrada em vigor do AI Act europeu e o RGPD, qual é o maior receio das empresas e como garantem a conformidade jurídica nos projetos de formação?

O maior receio dos gestores é a perda de controlo sobre dados confidenciais e o risco regulatório do novo AI Act. Muitas empresas querem inovar, mas temem coimas ou fugas de informação. Na Digital For You, abordamos a formação não como uma mera componente técnica, mas como um pilar de literacia, ética e conformidade. Ensinamos a anonimizar dados, a configurar ambientes seguros e a aplicar governação prática, garantindo inovação com total alinhamento regulatório.

Muitas PMEs continuam a olhar para a IA como algo complexo, dispendioso ou distante da sua realidade. Que mitos importa desmontar e quais são as resistências que encontra junto dos empresários?

O principal mito é que a IA exige investimentos avultados ou infraestruturas complexas. Com formação adequada e ferramentas na nuvem, qualquer PME pode otimizar a gestão documental, automatizar o atendimento ou apoiar decisões estratégicas. O maior erro ao adotar tecnologia é não medir o seu impacto real. Na Digital For You, mostramos que é possível adotar a IA de forma pragmática: desenhamos projetos focados na eficiência operacional, com reduções de tempo em tarefas administrativas em cerca de 70%. Fazemos um acompanhamento a 3 meses para avaliar o ROI, garantindo que a tecnologia se traduz em mais vendas, melhor atendimento e maior margem para a PME. O verdadeiro valor para uma empresa não está no software que compra, mas na autonomia com que a sua equipa o utiliza para simplificar operações.

A Inteligência Artificial está a transformar a forma como as empresas trabalham. Que competências considera que irão distinguir os profissionais mais preparados nos próximos anos?

Num mundo tecnológico, as competências mais diferenciadoras serão as humanas: pensamento crítico, resolução de problemas complexos, liderança empática e comunicação com a IA. Os profissionais não precisam de ser programadores, mas têm de ter literacia digital e adaptabilidade. A distinção estará em combinar a intuição e a ética humana com a velocidade de processamento da IA para tomar decisões estratégicas.

Reinventar um percurso profissional exige coragem. Houve algum momento particularmente desafiante ou alguma decisão difícil que hoje reconheça como determinante para o nascimento da Digital For You?

O maior desafio é abandonar a zona de conforto e um percurso onde já alcançamos reconhecimento profissional, para empreender. Isso obriga a redefinir a identidade e a gerir riscos. A decisão de criar a Digital For You nasceu da vontade de guiar empresários no ecossistema digital, de ver o tecido empresarial portugues mais dinâmico, funcionando como uma ligação entre a inovação tecnológica e a realidade das PMEs.

Se pudesse voltar ao início da sua carreira, que conselho daria à Carla Aguiar que dava os primeiros passos no mundo empresarial? E que mensagem gostaria de deixar às mulheres que ambicionam liderar projetos inovadores?

À Carla do início diria: «Confia no teu instinto, não tenhas medo de errar rápido para aprender mais depressa e lembra-te de que o teu valor está na capacidade de aprender e agir.» Às mulheres que querem liderar na inovação, deixo uma mensagem de ação: não esperem pelo momento perfeito para avançar. O setor precisa de mais perspetiva feminina, empatia e pragmatismo. Ganhem espaço, dominem as ferramentas digitais e usem a tecnologia para alavancar a vossa visão — o futuro do trabalho constrói-se por quem se atreve a liderar o presente. 

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