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Dar confiança a quem chega a Portugal

Tinha a identidade ainda em construção quando chegou a Portugal no final dos anos 90. Hoje, a solicitadora Maryna Muzyka usa essa memória como ferramenta e trabalha, em três línguas, com aqueles que chegam agora, tantas vezes sem saberem por onde começar.

Quando chegou a Portugal no final dos anos 90 encontrou um país que nessa altura sabia pouco do seu, a Ucrânia, até por estarem em extremos geográficos opostos da Europa. O que é que uma criança traz consigo nessa viagem e o que é que encontra do outro lado? O que foi mais difícil nos primeiros tempos?

Quando cheguei a Portugal, no final dos anos 90, já era adolescente — numa fase determinante, em que a identidade ainda se constrói, mas onde já existe uma consciência clara de quem somos e de onde vimos. Trouxe comigo não apenas memórias, mas valores profundamente enraizados, uma base cultural sólida e uma forte noção de pertença. O encontro com uma nova realidade foi, ao mesmo tempo, acolhedor e desafiante. Portugal revelou-se um país humano e generoso, mas, ainda assim, tudo exigia adaptação: a língua, os códigos culturais, a forma de estar. Foi um verdadeiro recomeço — exigente, mas profundamente transformador.

A língua foi uma das primeiras barreiras, mas tornou-se também a principal ponte. Mais do que aprender a comunicar, foi através dela que comecei verdadeiramente a integrar-me, a compreender e a fazer parte. Com o tempo, percebi que viver entre duas culturas não é uma fragilidade, mas uma força diferenciadora. Deu-me uma capacidade acrescida de adaptação, uma empatia mais profunda e uma resiliência muito sólida. Hoje, reconheço que foi precisamente esse percurso que moldou não só a minha forma de estar na vida, mas também a profissional que sou — mais consciente, mais determinada e com uma visão mais ampla do mundo.

O caminho até ao Direito raramente é linear, há sempre qualquer coisa que o precipita. O seu caso, o que foi?

O meu caminho até ao Direito foi sendo construído de forma silenciosa, muito ligado à minha própria história. Ao chegar a Portugal ainda jovem, tive desde cedo contacto com realidades onde a comunicação, a adaptação e a compreensão do “outro lado” eram essenciais. Nem sempre tudo era claro, simples ou imediato — e isso despertou em mim uma atenção especial para aquilo que não é dito, para os detalhes e para a importância de enquadrar bem cada situação.

Comecei a perceber que muitas das dificuldades não estavam apenas nas circunstâncias em si, mas na forma como eram interpretadas, enquadradas ou resolvidas. E foi aí que surgiu uma inquietação: a vontade de compreender melhor os mecanismos por detrás dessas situações e, sobretudo, de poder intervir de forma mais estruturada. O Direito apareceu como uma resposta natural a essa inquietação. Não apenas como uma área de estudo, mas como uma ferramenta que me permitiria transformar essa sensibilidade em ação — com rigor, responsabilidade e impacto real na vida das pessoas.

“Passo a passo, com consistência e apoio, é possível encontrar o seu lugar, reconstruir com dignidade e voltar a projetar o futuro”

Trabalha no Algarve, onde a relação com estrangeiros faz parte do dia a dia. Isso muda o tipo de processos que lhe chegam e a forma como trabalha?

Trabalhar no Algarve traz, naturalmente, uma dimensão muito particular à prática jurídica. A presença constante de clientes estrangeiros não só influencia o tipo de processos que chegam, como também exige uma abordagem diferente — mais adaptável, mais clara e, acima de tudo, mais consciente das diferenças culturais. Grande parte dos casos envolve pessoas que não estão familiarizadas com o sistema jurídico português, o que implica não apenas tratar da questão legal em si, mas também traduzir — no verdadeiro sentido da palavra — procedimentos, expectativas e enquadramentos.

Essa realidade levou-me a desenvolver uma forma de trabalhar mais próxima e pedagógica, onde a comunicação assume um papel central. Não se trata apenas de resolver processos, mas de garantir que cada cliente compreende o que está a acontecer e se sente seguro ao longo de todo o percurso. Ao mesmo tempo, esta exposição constante a diferentes culturas e realidades tornou-me uma profissional mais flexível, mais atenta ao detalhe e com uma capacidade acrescida de antecipar desafios.

Recebe quem a visita no seu site em três línguas (ucraniano, português e inglês) e faz consultas online com pessoas que ainda estão fora de Portugal. O que é que isso muda na forma como o seu trabalho começa?

Muda, desde logo, o ponto de partida da relação com o cliente. Muitas das pessoas que me procuram ainda estão fora de Portugal, muitas vezes num momento de decisão ou de transição nas suas vidas. Isso significa que o primeiro contacto não é apenas jurídico — é também um momento de orientação, de esclarecimento e, em muitos casos, de tranquilização. O facto de comunicar em três línguas permite criar essa ponte inicial com mais proximidade e confiança. O cliente sente-se compreendido desde o primeiro momento, o que faz toda a diferença quando está a lidar com um sistema legal desconhecido e, por vezes, com alguma incerteza.

Por outro lado, trabalhar com consultas online exige uma abordagem ainda mais estruturada e clara. É fundamental antecipar dúvidas, explicar processos de forma acessível e garantir que, mesmo à distância, existe segurança e transparência em cada passo.

Fevereiro de 2022 mudou a Ucrânia, algo a que ninguém terá ficado indiferente. Quem foge de uma guerra chega com urgência, muitas vezes depois de deixar tudo para trás, sem saber por onde começar. Qual é o seu papel nesse momento?

Fevereiro de 2022 não foi apenas um momento de rutura para a Ucrânia — foi um momento que redefiniu vidas, prioridades e certezas. Quando alguém foge de uma guerra, não chega apenas com urgência. Chega, muitas vezes, em estado de grande vulnerabilidade, com medo, com perdas difíceis de traduzir e com uma enorme incerteza sobre o futuro. Desde esse momento, tenho acompanhado de perto muitos compatriotas que chegaram a Portugal nessas circunstâncias — e continuo a fazê-lo até hoje.

Esse apoio tem sido tanto a nível jurídico como humano. Há procedimentos a tratar, direitos a assegurar e caminhos legais a estruturar, mas há também uma necessidade profunda de orientação, de escuta e de estabilidade.

Por partilhar a mesma origem, existe uma ligação imediata. Compreendo não só a língua, mas também o contexto, o peso emocional e o que está verdadeiramente em causa. Isso permite-me atuar de forma mais próxima, mais célere e mais consciente. Procuro, acima de tudo, trazer clareza no meio do caos. Dar direção quando tudo parece incerto. E garantir que, mesmo num momento tão difícil, cada pessoa sente que não está sozinha e que existe um caminho possível — estruturado, seguro e com dignidade. No fundo, é um papel que exige não apenas competência técnica, mas também um profundo sentido de responsabilidade e humanidade. Porque, nestas circunstâncias, o Direito torna-se mais do que uma profissão — torna-se uma ferramenta essencial para reconstruir vidas.

Há 27 anos era você a chegar. O que diria hoje a quem chegou ontem?

Diria, antes de tudo, que não estão sozinhos — mesmo que, no momento da chegada, tudo possa parecer incerto e esmagador.

Chegar a um novo país, especialmente em circunstâncias difíceis, é um dos maiores desafios que alguém pode enfrentar. Há medo, há dúvida, há um sentimento de perda. Mas há também algo muito importante: a possibilidade de recomeçar. Diria para terem paciência consigo próprios. A adaptação leva tempo. Aprender uma nova língua, compreender uma nova cultura e reconstruir uma vida não acontece de um dia para o outro — e está tudo bem. Ao mesmo tempo, encorajaria a que não percam aquilo que trazem consigo: a sua identidade, os seus valores, a sua história. Isso não é um obstáculo — é uma força.

Se hoje olho para trás, vejo que o caminho não foi fácil, mas foi possível. E é isso que gostava de transmitir: passo a passo, com consistência e apoio, é possível encontrar o seu lugar, reconstruir com dignidade e voltar a projetar o futuro. E, sobretudo, que não tenham receio de pedir ajuda. Porque há caminhos, há soluções — e há pessoas dispostas a apoiar.

MMSOLICITADORA.PT/SOLICITADORA-MARYNA-MUZYKA