Ninguém pergunta as horas a um relógio duas vezes seguidas. Olhamos uma vez, já está, seguimos em frente. É uma confiança ancorada nas infinitas vezes que passámos os olhos pelo nosso pulso. Há pessoas que transmitem essa segurança, parecem incapazes de nos enganar, não por ingenuidade, mas porque o seu compromisso com a verdade transparece através do próprio rosto, postura e gestos. Há uma serenidade visível em tudo o que é seguro. Alicerces, memória, sentimentos.
A confiança vem de um lugar mais fundo do que aquilo que vemos à superfície. Raramente se conquista por um simples gesto. É só quando a repetição se torna padrão que alcançamos o conforto de confiar em algo ou alguém sem pensar. Há rotinas boas, há hábitos maravilhosos. Tudo depende do que estiver na base, como um icebergue.
Ernest Hemingway, que nasceu em julho, encontrou nessa imagem uma forma sublime de explicar como escrevia:
“A dignidade do movimento de um icebergue deve-se ao facto de apenas um oitavo dele ficar acima da água.”
A metáfora ficou conhecida como a “teoria do icebergue”. O escritor mostra apenas a superfície. Ao leitor fica a tarefa de descobrir o que permanece submerso. Clara Ferreira Alves descreveu-o como um estilo “minimalista”, feito de “frases curtas, sem frases que se enredam umas nas outras. Sem emoções”. Elas existem, claro, mas nunca são explicadas. É como se o escritor fosse uma câmara de cinema, descrevendo os gestos, os olhares, os silêncios e os diálogos, sem dizer se existe ali medo, amor ou desespero. É dessa sucessão de imagens que o leitor reconstrói tudo o que permanece submerso, onde o que não é dito se torna tão importante como aquilo que se lê.
Mas há um pormenor fundamental nesta tensão entre o que se mostra e o que não se diz. Hemingway explicava que um escritor pode omitir aquilo que sabe, desde que saiba verdadeiramente do que está a falar. Só pode ficar submerso aquilo que realmente existe. O silêncio não substitui o conhecimento, nasce dele e do respeito pela inteligência do leitor.
Escrever bem e construir credibilidade acabam por obedecer às mesmas regras. Ambas exigem conhecimento, contenção e respeito por quem lê. Mas exigem também coragem. Hemingway resumiu-a numa expressão que se tornou inseparável do seu nome. “Grace under pressure”, manter a calma, a dignidade e a elegância sob pressão.
Boas Férias!




