Mulheres Inspiradoras

“Cada peça guarda horas de trabalho, escolhas conscientes e um cuidado que dificilmente se encontra na produção industrial”

Não quis criar apenas uma marca de moda, mas um projeto que eternizasse as suas raízes africanas. Na Dutis, Dulce Menezes dá forma a peças artesanais de capulana e croché com “alma e um propósito”. Atualmente, leva esse compromisso até Guiné-Bissau, através do projeto Argolas Solidárias, ajudando crianças a terem melhores oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.

Para que possamos conhecer melhor a Dutis, convidamo-la a regressar ao momento em que tudo começou. Como surgiu a ideia de criar este projeto?

A Dutis nasceu muito antes de existir como marca. Nasceu das minhas memórias, das minhas raízes e da vontade de preservar uma herança cultural que sempre fez parte da minha vida. Cresci rodeada pela riqueza dos tecidos africanos, pelas suas cores vibrantes, pelos seus padrões cheios de significado e pelo enorme valor do trabalho feito à mão. Sempre acreditei que um objeto pode contar uma história.

Quando decidi criar a Dutis, em 2023, quis precisamente dar forma a essas histórias através de acessórios artesanais que unissem tradição e contemporaneidade. Não queria criar apenas uma marca de moda, mas um projeto com identidade, onde cada peça tivesse uma alma e um propósito.

A capulana, um tecido tradicional de Moçambique, é a essência de muitas das suas coleções. Que significado tem, para si, transformar este símbolo da cultura moçambicana em acessórios contemporâneos?

A capulana é muito mais do que um tecido. É um símbolo de identidade, de tradição e de ligação entre gerações. Em África acompanha momentos marcantes da vida das pessoas e transporta consigo histórias, afetos e cultura.

Transformá-la em acessórios contemporâneos é uma forma de homenagear essa herança, preservando a sua essência enquanto lhe damos uma nova expressão. Procuro sempre respeitar o significado da capulana, valorizando os seus padrões e as suas cores, para que cada peça continue a contar uma história.

É particularmente gratificante quando alguém compra uma carteira, um colar ou um par de brincos e, ao mesmo tempo, descobre a origem daquele tecido. Acredito que a moda pode aproximar culturas, despertar curiosidade e promover o respeito pela diversidade.

E o croché, uma técnica que se tornou indissociável da marca, o que acrescenta às criações?

O croché é, para mim, uma verdadeira forma de expressão artística. Cada ponto é construído manualmente e exige tempo, precisão e dedicação, tornando impossível criar duas peças exatamente iguais. Essa singularidade é precisamente aquilo que mais valorizo.

Vivemos numa época em que muitos produtos são fabricados em série e acabam por perder identidade. O croché faz exatamente o contrário: devolve humanidade ao processo de criação. Cada peça guarda horas de trabalho, escolhas conscientes e um cuidado que dificilmente se encontra na produção industrial.

Além da componente técnica, permite explorar formas, texturas e combinações de cores que tornam cada criação única. É uma arte tradicional que atravessa gerações e que continua atual porque sabe reinventar-se.

Na coleção Izat o veludo tornou-se o protagonista das carteiras artesanais. Que características deste material despertaram o seu interesse?

O veludo conquistou-me pela sua elegância discreta e pela forma como desperta os sentidos. O toque macio, a profundidade das cores e a sofisticação natural fazem dele um material muito especial.

Quando imaginei a coleção Izat, quis criar carteiras que fossem intemporais e versáteis. Não pretendia seguir tendências passageiras, mas desenvolver peças capazes de acompanhar diferentes momentos da vida de quem as utiliza, mantendo sempre a sua beleza e funcionalidade.

O veludo revelou-se o parceiro ideal porque transmite conforto, requinte e durabilidade. Em conjunto com o trabalho artesanal, cria um equilíbrio muito interessante entre simplicidade e sofisticação.

Antes de cada peça ganhar forma, existem escolhas e um trabalho inteiramente feito à mão. Numa sociedade que vive da rapidez, o trabalho artesanal tornou-se uma vantagem ou um desafio?

Diria que é ambos. É um desafio porque o trabalho artesanal exige tempo, concentração e dedicação. Cada peça tem o seu próprio ritmo e não pode ser acelerada sem comprometer a qualidade. Isso contrasta com uma sociedade habituada ao imediato, onde muitas vezes se valoriza mais a quantidade do que a qualidade.

Mas é precisamente essa diferença que se transformou na maior força da Dutis.

Sinto que existe um número crescente de pessoas que procura produtos autênticos, produzidos de forma consciente e com uma história para contar. Querem saber quem criou a peça, de onde vêm os materiais e qual o significado daquilo que estão a comprar.

Acredito que o verdadeiro luxo do futuro será precisamente este: possuir menos, mas escolher melhor. Optar por peças feitas à mão, produzidas em pequenas quantidades e criadas para durar.

Na Dutis não vendo apenas acessórios. Partilho tempo, dedicação, criatividade e identidade. Cada criação representa um compromisso com a qualidade, a sustentabilidade e a valorização do trabalho artesanal, porque acredito que aquilo que é feito com paixão tem um valor que nenhuma máquina conseguirá substituir.

Tem apoiado crianças em Guiné-Bissau com a iniciativa “Argolas Solidárias”. Como é que um gesto tão simples, como a compra de um par de argolas, pode fazer a diferença na vida destas crianças?

As Argolas Solidárias representam um dos projetos que mais orgulho me dá desenvolver, porque refletem a convicção de que uma marca pode ter um impacto positivo na vida de outras pessoas.

Atualmente, através desta iniciativa, a Dutis apoia crianças na Guiné-Bissau com material lúdico e escolar, contribuindo para que tenham melhores oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.

Em breve, daremos um passo ainda mais significativo com o apadrinhamento de uma criança, assumindo o compromisso de contribuir para a sua alimentação e para as despesas escolares, acompanhando de forma mais próxima o seu crescimento e o seu futuro.

Cada pessoa que escolhe um par de Argolas Solidárias passa a fazer parte desta missão. Não leva apenas um acessório artesanal; leva consigo a satisfação de saber que está a contribuir para criar oportunidades e esperança.

A Dutis tem estado presente em desfiles como o Moda na Cidade, na Figueira da Foz. O que representa para a marca participar nestes eventos e que sentimento gostaria que as suas peças deixassem em quem as escolhe?

Participar em eventos como o Moda na Cidade representa muito mais do que apresentar uma coleção. É a oportunidade de mostrar que o artesanato tem um lugar de destaque na moda contemporânea e que tradição, criatividade e sustentabilidade podem caminhar lado a lado.

É também uma oportunidade para dar visibilidade ao trabalho manual e aproximar o público da história que existe por detrás de cada peça. Quando alguém conhece o processo de criação, compreende que está perante algo muito mais valioso do que um simples acessório.

Gostaria que quem escolhe uma peça da Dutis sentisse exatamente isso: que leva consigo um objeto criado com tempo, dedicação e respeito pelas tradições, inspirado na riqueza da cultura africana e produzido de forma consciente.

Se, além da beleza da peça, cada pessoa sentir que está a apoiar o artesanato, a preservar uma herança cultural e a contribuir para um projeto com impacto social, então a missão da Dutis estará verdadeiramente cumprida.

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