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“A autorresponsabilização é o verdadeiro ponto de viragem de qualquer plano de saúde”

A comunicação ocupa um lugar central na forma como Andreia Monteiro entende a saúde. Natural de Cabo Verde e radicada em Portugal desde os 18 anos, procura que cada paciente compreenda as razões por detrás de cada decisão clínica e assume a divulgação de informação rigorosa e acessível como parte da sua responsabilidade enquanto médica. É essa visão que orienta a especialista em Imuno-hemoterapia, Medicina Preventiva e Medicina Estética e está na origem da Clínica Pilares da Saúde.

Veio de Cabo Verde aos 18 anos para estudar medicina em Portugal, num processo exigente de adaptação pessoal e redefinição de caminho. Quando olha para esse período hoje, que marcas reconhece na forma como construiu o seu percurso e na relação que estabelece com os outros?

Sair de Cabo Verde aos 18 anos foi, sobretudo, uma lição antecipada de autonomia. Tive de aprender a organizar a minha vida sozinha, a tomar decisões sem rede de apoio imediata e a construir, praticamente do zero, um sentido de pertença num país que não era o meu. Hoje reconheço que essa fase moldou duas coisas que uso todos os dias: a capacidade de me adaptar rapidamente a contextos novos e exigentes, e uma enorme valorização das relações humanas genuínas.

A formação na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa expõe os estudantes a anos de contacto progressivo com a prática clínica e com diferentes realidades dentro do sistema de saúde. O que permanece desses anos de forma mais evidente na médica que é hoje?

Esses anos proporcionaram-me uma formação clínica rigorosa e a importância de nunca deixar de perguntar “porquê” quando algo não encaixa no esperado. Essa curiosidade clínica é, ainda hoje, o motor da forma como trabalho. Assim como me treinou para falar em público e a encarar o medo do julgamento. Definitivamente moldou o meu carácter e sou profundamente grata por isso.

Depois de vários anos na medicina, refere que sentiu necessidade de integrar uma abordagem mais ampla na forma como olha para a saúde. Em que momento essa inquietação se tornou mais clara e o que é que sentia que faltava até então?

Essa inquietação foi crescendo à medida que via, consulta após consulta, pacientes que cumpriam a terapêutica prescrita e ainda assim não melhoravam de forma sustentada. Faltava perguntar porquê a montante: o que estava por trás do sintoma — o sono, o stress crónico, a alimentação, os hábitos, a forma como a pessoa vivia o seu dia a dia. Percebi que precisava aprofundar os meus conhecimentos sobre como prevenir ou reverter os processos que antecediam as doenças. Foi esse desconforto, a sensação de estar a chegar sempre tarde demais, que me levou a procurar formação em medicina preventiva e funcional.

“A importância de nunca deixar de perguntar “porquê” quando algo não encaixa no esperado. Essa
curiosidade clínica é, ainda hoje, o motor da forma como trabalho”

Depois de integrar a medicina preventiva no seu percurso, o que é que mudou de forma mais evidente na maneira como passou a olhar para o doente e a conduzir o acompanhamento clínico?

Mudou o ponto de partida da consulta. Deixei de olhar apenas para o motivo que trouxe a pessoa à consulta e passei a construir um mapa mais amplo para perceber o que está a montante do sintoma. E mudou também o papel que atribuo ao paciente: de recetor de uma prescrição para agente ativo do seu próprio processo de saúde. Isso implica explicar o “porquê” de cada recomendação, para que a pessoa compreenda e se comprometa, e não apenas cumpra. A autorresponsabilização é, para mim, o verdadeiro ponto de viragem de qualquer plano de saúde.

Defende uma abordagem centrada na medicina preventiva e numa visão mais integrada da saúde, que inclui não apenas a dimensão física, mas também fatores psicológicos e emocionais. Como se traduz essa perspetiva numa consulta concreta e no acompanhamento dos seus pacientes?

Numa primeira consulta, dedico grande parte do tempo a ouvir, não só sintomas, mas rotina, sono, relações, níveis de stress, motivações. Só depois entramos na avaliação clínica e analítica mais dirigida. O plano que construo cruza sempre estas dimensões: pode incluir ajustes nutricionais e suplementação orientada por análises, mas também recomendações sobre gestão de stress, qualidade do sono ou até encaminhamento para acompanhamento psicológico, quando faz sentido. O acompanhamento é próximo e continuado, com reavaliações regulares, porque a saúde não se constrói numa única consulta — é um processo.

Na sua prática clínica, acompanha de perto mudanças de hábitos como alimentação, sono ou gestão de stress. Que impacto concreto tem observado dessas alterações no percurso de saúde dos seus pacientes?

O impacto é, muitas vezes, mais expressivo do que o de intervenções puramente farmacológicas. Vejo com regularidade pacientes que, ao ajustarem o sono e a gestão do stress, apresentam melhorias significativas em marcadores inflamatórios, no perfil hormonal e na energia percebida no dia a dia, mesmo antes de qualquer alteração terapêutica mais dirigida. A alimentação funciona da mesma forma: pequenas mudanças sustentadas ao longo do tempo têm mais impacto do que grandes restrições pontuais. O que estes casos têm em comum é a consistência; resultados verdadeiramente duradouros exigem hábitos mantidos, não soluções rápidas.

A Clínica Pilares da Saúde cruza diferentes áreas, da medicina preventiva à estética, numa lógica de acompanhamento personalizado. O que a levou a avançar com este projeto e que tipo de prática quis construir?

A Pilares da Saúde nasceu em 2016 da vontade de construir um espaço onde a saúde fosse tratada de forma integrada, e não fragmentada por especialidades que não comunicam entre si. Quis criar uma clínica onde a medicina preventiva, a funcional e a estética dialogassem, porque a forma como envelhecemos por fora reflete, em grande parte, o que se passa por dentro. O nome não é acidental: quis construir pilares reais, sólidos, de acompanhamento personalizado, onde cada paciente tem um plano pensado para si e não um protocolo genérico. Foi também esse espírito que me levou a criar, mais tarde, a Imunocare, para garantir que as pessoas têm acesso a suplementação de qualidade.

Enquanto CEO e médica, vive entre duas dimensões exigentes. Como gere esse equilíbrio no dia a dia e de que forma isso influencia as decisões dentro da clínica?

Não escondo que é um equilíbrio permanentemente em construção, nunca definitivamente resolvido. Tento proteger tempo dedicado exclusivamente à prática clínica, porque é o que dá sentido a tudo o resto, e trato a gestão da clínica com o mesmo rigor que aplico a um diagnóstico, com processos, indicadores e uma equipa em quem confio para partilhar responsabilidades. Ser médica torna-me, também, uma gestora diferente: qualquer decisão de negócio passa pelo filtro de “isto serve o paciente e a equipa, ou serve apenas o crescimento?”. Invisto também, de forma deliberada, no meu próprio desenvolvimento pessoal, emocional, intelectual e espiritual — porque sei que não posso pedir equilíbrio aos outros sem o cultivar em mim.

A sua formação inclui também a medicina estética, hoje cada vez mais associada a questões de autoimagem e bem-estar. Como integra essa dimensão na sua abordagem global de saúde?

Recuso separar a estética da saúde global. Trato a pele, o envelhecimento e a autoimagem como espelhos de processos internos, inflamação, hormonas, nutrição, sono e não como um campo isolado de intervenções cosméticas. Isso significa que, antes de qualquer procedimento estético, avalio sempre o estado de saúde de base do paciente. E significa também abordar a autoimagem com sentido de responsabilidade: o objetivo nunca é impor um padrão, mas ajudar cada pessoa a sentir-se bem consigo própria, com intervenções que respeitem a sua identidade e naturalidade.

“O objetivo nunca é impor um padrão, mas ajudar cada pessoa a sentir-se bem consigo própria, com intervenções que respeitem a sua identidade e naturalidade”

Tem uma presença consistente nas redes sociais, onde aborda temas ligados à saúde, prevenção e estilo de vida. O que a levou a investir nessa comunicação e que papel atribui hoje a esses canais na relação com o público?

Comecei a comunicar nas redes sociais pela mesma razão que me levou à medicina preventiva: a convicção de que informação de qualidade, acessível e sem alarmismo é uma ferramenta poderosa de saúde pública. Há muito ruído e desinformação em torno de temas como suplementação, longevidade ou imunidade, e senti responsabilidade em ocupar esse espaço com conteúdo rigoroso. Hoje vejo as redes sociais como uma extensão da consulta, um lugar onde posso semear autonomia e espírito crítico em quem talvez nunca chegue ao meu consultório, mas que pode, ainda assim, tomar melhores decisões sobre a sua saúde.

Esta edição assinala o Dia da Mulher Africana e coloca em destaque percursos de mulheres que constroem projetos em Portugal mantendo ligações às suas origens. De que forma as suas raízes em Cabo Verde continuam presentes no seu caminho profissional e pessoal?

Cabo Verde está presente em mim naquilo que reconheço como essencial: na resiliência, na forma calorosa como me relaciono com os meus pacientes e a equipa, e num sentido de comunidade que tento replicar dentro da clínica, cuidar de quem está perto como se fosse família alargada. Procuro manter viva essa ligação através da família, da cultura e da forma como transmito aos meus filhos a importância de conhecerem e valorizarem as suas raízes.

Ao olhar para o seu percurso, que mensagem considera mais relevante para outras mulheres que hoje procuram afirmar-se em contextos exigentes e competitivos?

Diria que a maior conquista não é eliminar a incerteza, mas aprender a avançar apesar dela. Construí o meu percurso longe de casa, sem atalhos, e a única constante foi a disciplina de continuar a investir em mim mesma, profissionalmente e também a nível emocional e espiritual. A outras mulheres, deixaria esta mensagem: não esperem sentir-se totalmente prontas para começar; a confiança constrói-se a fazer, não antes de fazer. E rodeiem-se de pessoas e ambientes que reforcem, e não diminuam, quem são.

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@DRA.ANDREIAMONTEIRO