As raízes africanas continuam a marcar a forma como Domingas Tavares Francisco lidera, empreende e olha para o mundo. Entre Angola e Portugal, construiu um percurso onde a diversidade cultural, a inclusão e a valorização das pessoas se tornaram os pilares da sua liderança.
Para Domingas Tavares Francisco, a identidade africana não é apenas uma memória das origens, mas uma forma de estar que continua presente na sua vida. A empreendedora reconhece que uma das maiores heranças que trouxe de África foi a capacidade de agir, mesmo quando as circunstâncias parecem longe do ideal. “Existe uma força muito característica da pessoa, ou que nasce, ou que passa por África: aprender a resolver os problemas com os recursos disponíveis no momento”.
Na sua perspetiva, esperar pelo momento perfeito é um luxo que nem sempre existe. Pelo contrário, a capacidade de encontrar soluções com os recursos disponíveis tornou-se uma competência que hoje transporta para a liderança e para o empreendedorismo. É uma forma de encarar os desafios que considera uma das melhores heranças que levará consigo para o resto da vida.
A construção de uma identidade entre dois países
O percurso entre Angola e Portugal permitiu-lhe também desenvolver uma visão mais ampla sobre as pessoas e os contextos. Conviver entre duas realidades distintas ajudou-a a relativizar perspetivas e a compreender que a verdadeira riqueza reside menos nas circunstâncias e mais na forma como cada pessoa escolhe agir. “Estar entre Angola e Portugal ajudou-me a relativizar muitos pontos de vista e formas de estar como pessoa e profissional”, afirma, acrescentando que essa experiência lhe ensinou a colocar “a ênfase no ser humano e não tanto na sua envolvente”.
Apesar do percurso consolidado, admite que nem sempre o caminho foi isento de obstáculos. Em determinados contextos profissionais, sentiu que a condição de mulher e a origem africana geravam uma dupla necessidade de provar o seu valor. “É como se tivesse de me explicar, mais de uma vez, para ter a validação e aceitação social”. Ainda assim, foi precisamente dessas experiências que retirou uma das aprendizagens que mais valoriza: a importância de conhecer profundamente quem é. Acredita que, quando existe essa segurança interior, deixa de ser necessário procurar constantemente a aprovação dos outros, porque o reconhecimento acaba por surgir de forma natural.

Ao olhar para o panorama empresarial português, considera que continuam a existir desafios significativos no que respeita ao acesso de mulheres afrodescendentes a cargos de liderança. Na sua opinião, é fundamental garantir uma maior visibilidade destas profissionais nos meios de comunicação social, nas empresas de referência e nos setores em crescimento, mas também reconhecer que as competências socioculturais representam uma mais-valia e podem constituir uma vantagem competitiva para as organizações.
A sua própria experiência no empreendedorismo reforçou essa convicção. Cresceu com a ideia de que o caminho mais seguro passava por trabalhar para outros e procurar estabilidade. No entanto, acabou por descobrir que os seus talentos poderiam gerar impacto de outra forma. “Percebi em mim muitos sonhos, inclusivamente alguns dons que poderiam estar ao serviço do outro”.
É precisamente essa visão que sustenta a sua ideia de empreendedorismo: quando cada pessoa põe os seus talentos ao serviço da comunidade, promove-se naturalmente uma sociedade mais inclusiva e com mais igualdade de oportunidades. Essa filosofia estende-se também à forma como entende a liderança. Para Domingas Francisco, nenhuma estratégia ou processo pode substituir o conhecimento genuíno das pessoas. “As empresas que se focam em demasia nos processos, muito facilmente, irão esquecer-se das pessoas”, refere, defendendo que um líder que não investe no autoconhecimento dificilmente conseguirá liderar equipas com empatia e proximidade.
Representatividade que inspira o futuro
A representatividade, acrescenta, não deve ser encarada como uma tendência ou uma questão meramente simbólica. Para a própria, a diversidade de percursos e experiências permite desenvolver uma liderança mais empática, capaz de compreender diferentes realidades e responder às necessidades das pessoas. “A representatividade não é somente um conceito, é uma necessidade humana”.
Para a empreendedora, quem nunca saiu da sua própria realidade terá maior dificuldade em compreender a realidade dos outros. É precisamente essa capacidade de olhar para diferentes contextos que distingue uma liderança verdadeiramente inclusiva.
Quando questionada sobre o legado que gostaria de deixar, a resposta ultrapassa qualquer fronteira nacional. Antes das bandeiras, lembra, existem pessoas, histórias e sonhos comuns. “Antes de sermos angolanos ou portugueses, somos pessoas a tentar encontrar o nosso lugar de realização no mundo”, reitera, acreditando que são essas experiências de vida, quando partilhadas, que permitem elevar a condição humana. A concluir, deixa uma última mensagem: “que tenhamos a coragem de sermos felizes”.




