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“A confiança nasce da conquista, não do elogio fácil”

As crianças chegam à escola com mais estímulos e informação, mas com fragilidades crescentes na atenção, na expressão oral e na autonomia. Amílcar Sousa, diretor do Colégio A Torre dos Pequeninos, defende uma educação que conjugue exigência e afeto, estimule o pensamento crítico e prepare as crianças para um mundo em que a inteligência artificial promete respostas, mas exige capacidade de pensar. A reflexão estende-se ao papel das famílias, às mudanças necessárias no sistema educativo e ao projeto de alargamento do colégio ao 2.º ciclo.

Desde a nossa última conversa, em 2024, o que mudou mais na forma como as crianças chegam à escola e nas necessidades que hoje sentem enquanto alunos?

As crianças continuam a ser crianças: curiosas, generosas, com enorme vontade de aprender. O que mudou foi o mundo à volta delas. Recebemos crianças com mais estímulos e menos experiências; mais ecrã e menos conversa; mais informação e menos linguagem. Notamos, logo no Jardim de Infância, fragilidades na atenção, na expressão oral, na autonomia e na capacidade de esperar pela sua vez. Não é culpa das crianças — é o resultado de rotinas familiares cada vez mais apressadas. Por isso, as necessidades são, paradoxalmente, as mais antigas: tempo, presença, regras claras, brincar ao ar livre, mexer na terra — como fazem na nossa quinta pedagógica, a Quinta da Igreja. A escola tem de ser, cada vez mais, o lugar onde a infância é protegida.

A tecnologia e, mais recentemente, a inteligência artificial estão a transformar profundamente a forma como aprendemos. Como olha para estas ferramentas na educação de crianças e jovens? Considera que há mais oportunidades ou mais riscos?

A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária — para quem já sabe pensar. O problema é quando chega antes do pensamento: uma criança que não lê com fluência, não escreve um texto com princípio, meio e fim, nem sustenta uma opinião, fica dependente, não fica mais capaz. Os maiores riscos são humanos: a perda de concentração, a preguiça intelectual e a ilusão de que saber é “perguntar a alguém”. Nos primeiros anos, o essencial faz-se com lápis, livros, conversa e bons professores; a tecnologia entra quando acrescenta, nunca quando substitui. E o papel das famílias é decisivo: não vale a pena a escola proteger durante o dia o que se expõe sem regra à noite. Educar para o digital começa pelo exemplo — e o telemóvel à mesa de jantar é um mau exemplo.

Fala muitas vezes da importância do trabalho e da exigência. Como se educa hoje uma criança para lidar com a frustração e com a dificuldade, numa sociedade que muitas vezes procura facilitar-lhe o caminho?

Deixando-a acontecer. Vivemos numa sociedade que confunde amor com facilitação: retiram-se os obstáculos do caminho das crianças, resolvem-se os problemas por elas e, com a melhor das intenções, criam-se crianças frágeis, que desistem à primeira dificuldade e vivem cada “não” como uma injustiça. A frustração é uma etapa da aprendizagem: ninguém aprende sem errar e voltar a tentar. Valorizamos o esforço tanto quanto o resultado — e exigimos as duas coisas. A criança tem de perceber que o mérito se conquista e que o trabalho bem feito dá trabalho. Exigência sem afeto é dureza; afeto sem exigência é abandono disfarçado. Aos pais digo muitas vezes: não façam pelos vossos filhos aquilo que eles já conseguem fazer sozinhos. A confiança nasce da conquista, não do elogio fácil.

Que competências considera que uma criança deve levar consigo quando termina o percurso escolar para estar verdadeiramente preparada para o mundo que vai encontrar?

Primeiro, as bases, sem complexos: ler, escrever e contar bem. Sem domínio da língua não há pensamento estruturado nem sentido crítico — e, num mundo inundado de respostas automáticas, essa será uma vantagem cada vez mais rara. Depois, hábitos de trabalho, de estudo e de concentração, que transformam o talento em resultados. Também as competências humanas que nenhuma máquina substitui: ouvir, argumentar, respeitar o outro, cumprir compromissos. Por fim, e acima de tudo, o carácter: Amor, Dignidade, Gratidão, Humildade, Generosidade e Coragem. Os conhecimentos mudam; o carácter fica. Uma criança séria, trabalhadora e responsável estará preparada para qualquer futuro.

Quando olha para os próximos cinco ou dez anos, como imagina o futuro da Torre dos Pequeninos? Que mudanças gostaria de ver na escola e no projeto educativo?

Imagino uma Torre dos Pequeninos maior, mas igual a si própria — com o 2º Ciclo a funcionar e sem perder a proximidade às famílias e o conhecimento profundo de cada criança, que sempre foram a nossa marca. As prioridades são claras: o desporto e o bem-estar; a saúde mental das crianças, que não pode ser tratada como tema secundário; um entendimento cada vez maior dos pais acerca do nosso Projeto Educativo, porque quem conhece e partilha compromete-se mais; e a formação e renovação natural dos nossos profissionais, porque uma escola vale o que valem os seus profissionais. A Medalha Municipal de Mérito, atribuída este ano pela Câmara Municipal de Santo Tirso, encheu-nos de orgulho, mas não nos deslumbra: é uma responsabilidade acrescida. Quero que se continue a dizer de nós que somos uma escola séria, exigente e onde as crianças são felizes.

Anteriormente, anunciaram a intenção de avançar para outros níveis de ensino. Em que ponto está hoje esse projeto e que visão tem para o crescimento do colégio?

O 2º Ciclo é hoje o nosso grande objetivo e a principal prioridade estratégica do colégio — não é um projeto de gaveta. Responde a um pedido constante das famílias, que não querem interromper aos dez anos um percurso em que confiam, e evita uma transição precoce com custos que nem sempre se veem de imediato. O terreno está garantido. As dificuldades são duas. Os custos de construção, que aumentaram de forma muito significativa e colocam desafios acrescidos à viabilização económico-financeira de um projeto feito sem qualquer apoio público — risco que não queremos transferir para as famílias. E a falta de professores qualificados, com o perfil certo para um projeto exigente como o nosso. Não abdicamos da qualidade: preferimos abrir mais tarde com os profissionais certos. Não se trata de saber se vai acontecer, mas quando.

Que mudanças gostaria de ver no sistema educativo português para que as escolas estejam mais bem preparadas para educar as crianças que vão viver o futuro?

O sistema não precisa de mais recursos, precisa de mais e melhor organização. O ensino continua a ser o único setor-chave sem uma entidade reguladora independente do Estado; precisamos de um Estado menos prestador e mais regulador. Acrescentaria: devolver autoridade e reconhecimento aos professores, exigindo avaliação séria; dar autonomia às escolas, para que cada uma defina o seu projeto e responda por ele; e regressar ao essencial nos primeiros anos, trocando o facilitismo pelo esforço. O programa Creche Feliz, a que não aderimos, é um bom exemplo do que não deve ser feito: uma boa intenção, mas uma péssima concretização. Em vez de financiar as famílias e deixá-las escolher, financiaram-se as instituições, remetendo as creches particulares para um papel supletivo. Perdeu-se, mais uma vez, a oportunidade de devolver às famílias o poder de decidir o projeto educativo dos seus filhos e privilegiou-se, uma vez mais, o setor social em detrimento da qualidade, da liberdade e da exigência. Uma sociedade que não trata bem os seus filhos é uma sociedade sem futuro. 

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