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Uma escola de futuro, com 140 anos de legado

Em pleno coração de Vila Nova de Gaia, num edifício com mais de sete décadas que guarda nos corredores a memória de uma escola fundada há 140 anos, a diretora Marília Raro e a sua subdiretora Susana Seixas recebem-nos com a serenidade de quem gere todos os dias uma das maiores e mais complexas comunidades educativas do norte do país.

O Agrupamento de Escolas António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, é hoje uma estrutura que une sete estabelecimentos de ensino, 2250 alunos, 42 nacionalidades e uma aposta crescente no ensino profissional com tecnologia de ponta de última geração, com dois Centros Tecnológicos Especializados a inaugurar e até uma presença assinalável numa simulação de conferência da ONU sobre inteligência artificial, em Singapura.

A escola teve vários nomes ao longo de 140 anos. Já foi a Escola de Desenho Industrial Passos Manuel, já foi a Escola Número Um de Vila Nova de Gaia, entre outros. Hoje dá nome a um agrupamento que abrange desde o pré-escolar até ao 12.º ano, com ensino recorrente noturno e um Centro Qualifica para adultos e PLA.

“Antes de mim, muitos existiram e permitiram que a escola se desenvolvesse ao longo das décadas e do último século”, diz Marília Raro. “E depois de mim, muitos hão-de vir. Alguém estará cá a liderar para comemorar os 200 anos, …as pessoas passam e as organizações continuam!”

Essa continuidade, porém, não significa imobilismo. Logo no átrio da escola sede, um fresco com a figura de Teixeira Lopes recebe quem chega. Foi restaurado há poucos anos, quando poderia simplesmente ter desaparecido durante uma obra. Não desapareceu porque o director, à data, não permitiu. É um pormenor que diz muito sobre a forma como este agrupamento olha para o que herdou.

Ao longo da visita guiada que Marília Raro e Susana Seixas nos proporcionaram, essa leitura confirma-se nos corredores e nas novas salas dos CTE. Um edifício que envelhece com dignidade e que se prepara, agora, para renovar o sistema de aquecimento e ar condicionado numa intervenção longa, marcada no passado por obras incompletas e por um inverno gelado em 2021 que desfez o que tinha sido feito.

“Terá que ser gerido com algumas pinças”, admite a diretora, sem dramatizar. É o pragmatismo de quem já aprendeu a gerir o imprevisível como rotina.

Agrupamento de Escolas António Sérgio · Oferta Formativa
Do Pré-Escolar ao 12.º ano
Cursos Científico-Humanísticos: Ciências e Tecnologias · Línguas e Humanidades · Ciências Socioeconómicas · Artes Visuais
Cursos Profissionais: Técnico de Desenvolvimento de Software · Técnico de Multimédia · Técnico de Sistemas Fotovoltaicos – Técnico de Sistemas Térmicos.
Centros Tecnológicos Especializados (CTE): CTE de Informática e CTE de Energias Renováveis
Ensino para Adultos: Ensino Secundário Recorrente · Centro Qualifica · Português Língua de Acolhimento (PLA)

Uma escola de 42 nacionalidades

Dos 2250 alunos matriculados do pré-escolar ao 12.º ano, uma significativa percentagem é de estrangeiros. Uma proporção que transforma o agrupamento num dos mais multiculturais do país. São 42 nacionalidades, entre elas alunos provenientes do Brasil, Angola, Ucrânia, Rússia, Irão e Israel. “Nunca temos processos disciplinares por razões culturais ou de origem”, sublinha Susana Seixas. “A origem não é um problema entre eles.”

A escola desenvolveu mecanismos próprios para lidar com esta realidade. Alunos mais antigos funcionam como mediadores linguísticos para os recém-chegados. É o que acontece com um jovem ucraniano que já domina o português e que se torna ponto de apoio para um colega que acaba de chegar da mesma região.

Em julho, a escola convoca professores para um período de português intensivo para alunos que chegaram a meio do ano sem falar a língua. E há o Dia da Diversidade e Multiculturalidade, em maio, onde adultos dos cursos noturnos e alunos do ensino regular diurno convergem com danças, trajes e pratos típicos dos seus países de origem.

Para os alunos estrangeiros jovens existe o PLNM — Português Língua Não Materna, integrado no currículo. Para os adultos, o PLA — Português Língua de Acolhimento, com sete turmas em funcionamento, frequentadas também por licenciados de outras áreas que chegam a Portugal e precisam de aprender a língua. O ensino é gratuito.

As sete escolas
Escola Secundária António Sérgio – escola sede (7.º ao 12.º ano)
EB 2/3 de Santa Marinha (5.º ao 9.º ano)
EB1/JI do Marco (Pré-Escolar, 1º ao 4.º ano)
EB1/JI da Praia (Pré-Escolar, 1º ao 4.º ano)
EB1/JI das Pedras (Pré-Escolar, 1º ao 4.º ano)
EB1/JI Prof. Dr. Marques dos Santos (Pré-Escolar, 1º ao 4.º ano)
EB1/JI Quinta das Chãs (Pré-Escolar, 1º ao 4.º ano)

Do pré-escolar ao palco do Auditório Municipal
A abrangência do agrupamento começa muito antes do secundário. Nas cinco EB1/JI que integram a estrutura, vários projetos destacam-se: na Escola Básica da Quinta das Chãs, uma parceria com a Casa da Música (ativa desde 2016) deu origem a um coro infantil integrado no Coro da instituição. Na escola básica da Praia, alunos do 3.º e 4.º anos praticam canoagem, com a escola a ter adquirido fatos térmicos e equipamento próprio.

Na escola Prof. Dr. Marques dos Santos o projecto “Orquestra de Brincar”. Há ainda protocolos com o FC Porto na área do andebol na escola básica de Sta. Marinha, para os escalões mais jovens, e com a Federação Nacional de Basquetebol na escola básica das Pedras. Está ainda previsto um projecto (2026/2027), no âmbito da música, para a escola básica do Marco.

Na escola Secundária e na EB 2/3 de Santa Marinha, o Complemento à Educação Artística, disciplina curricular, alimenta dois clubes de teatro que este ano levou ao palco do Auditório Municipal de Gaia uma produção de Alice no País das Maravilhas, com três récitas, direitos de autor pagos, e o auditório esgotado nas três sessões. É o mais recente numa série que inclui Aladim, Mamamia, Fame, Cinderela, High School Musical e Mudança de hábito.

O que são os Centros Tecnológicos Especializados
Os CTE são uma figura criada pelo Ministério da Educação, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que concentra em escolas âncora equipamento de alta tecnologia e formação avançada para o ensino profissional. A Secundária António Sérgio é uma das escolas selecionadas a nível nacional para acolher dois centros: um na área da informática, com valências em cibersegurança, redes e realidade virtual; e outro em energias renováveis, com equipamento para formação em sistemas fotovoltaicos, térmicos e operação de CNC.

Os Centros Tecnológicos Especializados

Nos últimos seis ou sete anos, a escola concentrou a sua aposta no ensino profissional em torno da área digital: o curso de Técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos e o curso de Multimédia consolidaram-se como as ofertas com maior procura. “Virámos a orientação dos cursos profissionais para a área digital porque era onde conseguíamos encontrar mais alunos a procurar a área e formar turmas com mais facilidade”, explica Marília Raro.

A articulação com o mercado de trabalho faz-se, no 12.º ano, através de estágios em empresas parceiras. Os alunos passam dois dias na escola e três na empresa durante o ano letivo.

Agora, esse percurso dá um salto qualitativo com a criação de dois Centros Tecnológicos Especializados, uma figura criada pelo Ministério da Educação para concentrar equipamento de alta tecnologia e práticas avançadas em escolas âncora, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência. O CTE de Informática já está em fase de inauguração, com salas renovadas e equipadas para cibersegurança, redes e realidade virtual (áreas que a escola não conseguia trabalhar com o equipamento anterior). O CTE de Energias Renováveis, em preparação, vai permitir ministrar formação em sistemas fotovoltaicos e térmicos com uma máquina CNC (Computer Numerical Control — controlo numérico por computador) e equipamentos que correspondem à realidade atual do setor.

A escala da aposta é visível. Uma delegação de alunos de São Tomé e Príncipe está prevista para integrar a escola no âmbito do curso de energias renováveis. E em março deste ano, dois alunos e um professor do agrupamento integraram a representação portuguesa numa simulação de conferência da ONU sobre inteligência artificial em Singapura.

No verão, os cursos profissionais têm levado turmas ao estrangeiro. Multimédia em Roma e Florença, pelo valor histórico e estético da Itália para quem trabalha com imagem; Informática e Energias Renováveis a Amesterdão e, este ano, a Milão, com visita prevista ao Politécnico e ao Bosco Verticale, ícone de arquitetura sustentável. “Muitos deles nunca teriam a oportunidade de ir a Itália”, diz a diretora. “É uma forma de irem conhecer outras realidades.”

A orquestra e o que falta afinar

Com tantas referências culturais, não é de estranhar que Marília Raro recorra a esta imagem quando questionada sobre o futuro do agrupamento que dirige: “Gostaria de ver este agrupamento a funcionar como uma orquestra onde toda a gente está afinada.” Acrescenta, com a honestidade de quem dirige uma organização de grande escala: “Não quero com isto dizer que não funcionamos quase como uma orquestra. Mas falta aquela pequena percentagem, aquela nota em falta…”

A metáfora é também uma descrição honesta do trabalho de quem lidera uma escola pública em 2026, com os desafios que o contexto social coloca à gestão quotidiana da disciplina e com uma autonomia que, na prática, fica frequentemente aquém do que os diretores precisariam para agir com a rapidez e eficácia que as situações exigem. Identificar o que está fora de tom, corrigir, voltar a afinar, dentro do que o sistema permite. “Nós, todos os dias temos que nos automotivar. E o facto de andarmos permanentemente a corrigir o que está menos bem, é a forma que temos de ir melhorando.” Uma melhoria contínua que, por definição, não termina, como uma partitura que se reescreve enquanto a orquestra já está a tocar.

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