Sónia Gonçalves acredita que a obesidade continua envolta em preconceitos, ainda longe de ser tratada com o mesmo rigor de outras doenças crónicas. Foi essa convicção que deu origem à Obesity Clinic. Em entrevista à IN Corporate Magazine, a diretora clínica explica os principais desafios da doença e defende a necessidade de uma abordagem integrada, com acompanhamento contínuo e sem julgamento.
A Obesity Clinic foi fundada com uma convicção: o tratamento da obesidade exige o mesmo rigor clínico que qualquer outra doença crónica. Na sua opinião, a que se deve esta desigualdade e o que precisa de mudar neste paradigma?
A obesidade continua a ser vista, em muitos contextos, como um problema de comportamento, apesar da evidência científica a definir claramente como uma doença crónica, multifatorial e recidivante.
Este desalinhamento entre o que sabemos e a forma como ainda se aborda a doença tem impacto direto no diagnóstico, no acesso ao tratamento e na experiência dos doentes, perpetuando o estigma e comprometendo resultados clínicos. É essencial reconhecê-la como doença crónica e integrá-la em modelos de cuidado estruturados. Foi desta necessidade que nasceu a Obesity Clinic: tratar com rigor clínico, continuidade e sem julgamento, através de um modelo digital que garante acesso e proximidade.

Para uma compreensão mais rigorosa do conceito de obesidade, como o define do ponto de vista clínico? A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial, caracterizada por uma acumulação excessiva e disfuncional de tecido adiposo, que resulta em alterações estruturais e funcionais com impacto negativo na saúde. O diagnóstico não deve basear-se exclusivamente no índice de massa corporal (IMC), que é uma medida indireta, mas integrar uma avaliação mais abrangente que inclua a distribuição da gordura corporal, o perfil metabólico e a presença de comorbilidades associadas.
Atualmente, a obesidade é entendida como uma doença sistémica, com impacto em múltiplos órgãos e sistemas, incluindo a regulação do apetite, o metabolismo energético e os processos inflamatórios, o que reforça a necessidade de uma abordagem clínica integrada e individualizada.
Sabemos que a obesidade está associada ao estilo de vida, mas, de acordo com a ciência, existem outros fatores envolvidos. Ter familiares com esta doença aumenta o risco de desenvolver a condição? Que cuidados considera essenciais na alimentação?
A associação ao estilo de vida é real, mas incompleta. A obesidade resulta da interação entre genética, regulação do apetite, ambiente e fatores comportamentais. Ter familiares com obesidade aumenta o risco, mas não o determina. Na alimentação, o foco deve estar num padrão estruturado, ajustado ao perfil individual e sustentável. Na Obesity Clinic, o plano nutricional integra uma estratégia terapêutica contínua, com acompanhamento próximo e adaptativo.

O compromisso com o tratamento envolve mudanças profundas nos hábitos diários dos pacientes a longo prazo, nem sempre fáceis de manter. Como funciona o modelo e percurso clínico que disponibilizam?
O tratamento exige uma abordagem estruturada e contínua. Na Obesity Clinic, inicia-se com uma avaliação médica detalhada, definição de objetivos claros e realistas e a construção de um plano integrado que pode incluir nutrição, intervenção comportamental e terapêutica farmacológica. Este modelo assenta igualmente numa equipa multidisciplinar com elevada experiência no tratamento da obesidade, alinhada por uma visão comum que reconhece a obesidade como uma doença crónica complexa, exigindo uma abordagem integrada e sustentada. O acompanhamento longitudinal, com monitorização regular e ajustes dinâmicos, é central no nosso modelo. Não tratamos episódios, tratamos uma doença crónica.
A inovação farmacológica e a tecnologia têm vindo a ganhar grande destaque. Estas soluções representam um avanço para os tratamentos ou levantam novos desafios? Considera que o formato das consultas 100% online pode tornar os pacientes mais confortáveis com os tratamentos?
A inovação farmacológica é um avanço relevante, permitindo atuar nos mecanismos de regulação do apetite com eficácia significativa. No entanto, exige prescrição criteriosa e integração num plano global. O modelo digital aumenta o acesso, facilita a adesão e melhora a continuidade – e isso resulta num modelo estruturado e de proximidade clínica.
A pressão estética, alimentada pelas redes sociais, influencia a procura por tratamentos na expectativa de obterem “soluções rápidas”. Como é que estas situações são geridas em consulta? São cada vez mais frequentes expectativas irrealistas. Em consulta, é essencial reenquadrar a obesidade como uma questão de saúde, definir objetivos clínicos adequados e reforçar o seu caráter crónico. Trabalhar a literacia em saúde e desconstruir a ideia de soluções rápidas é fundamental para resultados sustentáveis.
No Dia Nacional de Luta contra a Obesidade, quem pretendem sensibilizar e como pode a Obesity Clinic fazer a diferença?
Na Obesity Clinic, promovemos saúde para além do peso, colocando o foco em ganhos clínicos significativos e sustentáveis. Mais do que tratar, o objetivo é claro: contribuir para uma mudança de paradigma na forma como a obesidade é compreendida e cuidada. Enquanto continuarmos a olhar para a obesidade como um problema de comportamento, estaremos a falhar no seu tratamento. O verdadeiro desafio é alinharmos a prática clínica com a evidência científica – reconhecendo-a, finalmente, como a doença crónica que é.





