Mais de 85% dos profissionais portugueses inquiridos num estudo recente apresentam pelo menos um sintoma de burnout. O problema já não pode ser colocado apenas do lado de quem trabalha. Também é preciso olhar para a forma como o trabalho está a ser feito.
O estudo mais recente do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis ouviu 5549 profissionais de diferentes setores e encontrou um cenário difícil de ignorar. Mais de 85% apresentam pelo menos um sintoma de burnoute 41% apresentam quatro. A solidão é referida por 37,6% dos participantes e 38,3% dizem ser vítimas de assédio laboral.
Há outro dado que ajuda a perceber o problema. Apenas 41,5% dos inquiridos consideram que o local onde trabalham se preocupa com o bem-estar dos trabalhadores. Entre aquilo que mais valorizam estão uma melhor organização do trabalho, mais recursos humanos, maior previsibilidade, pausas e tempo para recuperar. Pedem também lideranças mais próximas e preparadas. A questão não é nova, mas ganhou outra dimensão. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou em abril um relatório dedicado aos riscos psicossociais no trabalho e coloca a discussão precisamente na forma como o trabalho é concebido, organizado e gerido. Carga de trabalho, ritmo, autonomia, horários, clareza das funções, supervisão e segurança no emprego são alguns dos fatores considerados.
A OIT estima que os riscos psicossociais relacionados com o trabalho estejam associados a mais de 840 mil mortes por ano e a quase 45 milhões de anos de vida saudável perdidos. O impacto económico corresponde, segundo a mesma estimativa, a 1,37% do PIB mundial. Estes números não significam que o trabalho explique todos os problemas de saúde mental. Significam que não pode ser retirado da equação. Há sofrimento que chega ao local de trabalho vindo de fora, mas também há sofrimento que nasce ou se agrava dentro dele.
A resposta não estará apenas em criar consultas de psicologia ou programas de bem-estar. Essas respostas podem ser importantes quando alguém precisa de ajuda, mas não alteram uma carga de trabalho excessiva, uma liderança inadequada ou uma cultura em que estar permanentemente disponível passou a ser normal. É aqui que a saúde mental deixa de ser apenas uma questão de acompanhamento individual. A forma como se distribui o trabalho, como se definem prioridades e como se mede o desempenho tem consequências sobre as pessoas.
Também por isso a tecnologia merece atenção. O trabalho remoto e os modelos híbridos trouxeram flexibilidade, mas tornaram menos clara a fronteira entre o tempo profissional e o resto do dia. A digitalização e a inteligência artificial estão a alterar novamente essa relação. A OIT considera que estas mudanças podem criar novos riscos, mas também oportunidades para melhorar a organização do trabalho.
Cuidar das pessoas começa antes de ser necessário pedir ajuda. Começa na maneira como o trabalho é pensado e naquilo que se considera aceitável exigir a quem o faz. Para uma empresa, esta não é uma questão lateral. Quando o desgaste se torna parte normal do trabalho, acaba por deixar de ser apenas um problema de quem está cansado.




