No mês em que se assinala o Dia Nacional do Psicólogo, Eduarda Figueiras regressa à nossa capa para falar de saúde mental e da importância de reconhecer os sinais de sofrimento antes de chegarmos ao limite. Nesta conversa, a psicóloga fala também da dificuldade em comunicar nas relações, apresenta o curso Fala Comigo e antecipa dois novos projetos, um dos quais será conhecido já em outubro.
A 4 de setembro assinala-se o Dia Nacional do Psicólogo. Quando olha para o caminho que percorreu até aqui, sente que a sociedade portuguesa passou finalmente a reconhecer a saúde mental como parte integrante da saúde ou continuamos, demasiadas vezes, a procurar ajuda apenas quando o sofrimento já se tornou difícil de gerir?
O dia 4 de Setembro tem um grande significado para mim e penso que posso falar por todos os colegas desta profissão. Este dia simboliza o reconhecimento e a valorização de uma profissão que trabalha todos os dias em prol de promover a saúde mental e o desenvolvimento humano contribuindo assim para um impacto positivo na qualidade de vida das pessoas e no bem-estar de quem nos procura. Este dia serve também para refletir sobre o caminho coletivo que já fizemos até ao momento, mas também no que ainda falta fazer.
Assim, respondendo à questão, posso dizer-vos que Portugal já reconhece a saúde mental como fazendo parte integrante da saúde, mas ainda existem muitas pessoas que procuram ajuda tarde demais, muitas vezes, por vergonha e devido ao estigma associado. Mas existem alguns sinais que mostram que estamos a evoluir, por exemplo, as pessoas falam cada vez mais sobre como se sentem, começam a falar mais sobre as emoções (ansiedade, tristeza), começam a reconhecer alguns sinais que eram anteriormente vistos como “normais” e agora já não são. Além disso, existem cada vez mais empresas que começam a perceber que a saúde mental dos colaboradores é fundamental para a produtividade e, por isso, já implementam programas de saúde mental.
Cada vez mais, os jovens procuram o acompanhamento psicológico para lidar com as suas dificuldades. Com isto, a saúde mental começa a deixar de ser tabu e passa a ser um tema público. Temos ainda de investir mais na prevenção da saúde mental, isto porque muitas pessoas chegam ao consultório quando já estão exaustas, quando o corpo já somatiza meses de tensão, quando o sofrimento já se tornou difícil de gerir e quando a vida já está a pedir socorro há demasiado tempo. Em jeito de conclusão, já começa a haver mais conhecimento sobre as emoções, mas ainda temos dificuldades em cuidar delas antes de chegarmos à nossa “linha vermelha”, isto porque na nossa sociedade continua-se a valorizar o sofrer em silêncio, a ideia de “aguentar mais um pouco” e a crença de que pedir ajuda é só para quando já não há alternativas ou ainda porque não “sou fraco”.
O Dia Nacional do Psicólogo não celebra apenas a nossa profissão, celebra a nossa missão: educar para que cada vez mais se peça ajuda sem chegarem ao ponto de rutura; desmistificar a psicologia e a saúde mental e mostrar que tal como a saúde física a saúde mental também é importante, normalizar para que cuidar da mente seja tão natural como cuidar do corpo e prevenir para que o sofrimento não precise de chegar ao limite para ser atendido. É um dia que lembra que a Psicologia não é só a resposta ao sofrimento das pessoas como o pode prevenir.
“Comunicar com verdade, ouvir para compreender, isto é, sem se defender de imediato e estabelecer limites sem medo de perder o outro são pontos importantes para uma relação saudável”
Setembro representa, para muitas pessoas, um novo ciclo. Terminam as férias, regressam as rotinas, aumentam as exigências profissionais e familiares. Que desafios emocionais costuma encontrar nesta altura do ano e que conselhos deixaria a quem procura regressar ao dia a dia de forma mais equilibrada?
O mês de setembro traz sempre com ele uma sensação de recomeço. Mas a verdade é que nem sempre é fácil enfrentar este mês. Isto porque o nosso corpo e mente ainda estão num ritmo mais lento, quando a vida do dia-a-dia já está a pedir aceleração, organização e presença. Entre as férias e setembro existe uma grande mudança de ritmo e estas mudanças têm impacto no nosso sistema nervoso.
O que venho a observar, ano após ano, é que setembro não é difícil porque exige muito; é difícil porque exige mudança. Muitas pessoas sentem que o corpo “ainda está em modo de descanso”, mas o mundo já está em modo produtividade, e esta diferença gera muitas vezes irritabilidade, cansaço e dificuldade de foco. Para além disso, começa a surgir também pressão para “começar bem” o mês, como se setembro fosse um novo ano e tudo tivesse de arrancar perfeito, o que leva muitas vezes a níveis elevados de ansiedade.

Setembro é o mês em que regressam as rotinas familiares, escolares e profissionais, e com elas a sensação de que tudo começa ao mesmo tempo, aumentando a sobrecarga de papéis. A par disto há quem se culpe por não estar motivado para começar, como se a energia tivesse de regressar automaticamente com a agenda preenchida por compromissos, quando na verdade a motivação volta devagar, sendo necessário por vezes ter atenção à carga de trabalho que vamos colocar nos dias após as férias. Precisamos de voltar às rotinas no nosso ritmo. Para regressar ao dia a dia de forma mais equilibrada, setembro pede transição, não aceleração imediata.
O corpo precisa de uns dias para reencontrar o foco, e por isso ajustar o ritmo gradualmente é essencial. Em vez de tentar retomar tudo, é mais realista escolher três prioridades por semana e permitir que o resto se reorganize com o tempo. Criar pequenas rotinas de autocuidado: por exemplo, dez minutos de silêncio, um café sem ecrãs, uma caminhada curta. Estas atividades vão ajudar o sistema nervoso a estabilizar. Aceitar que a motivação volta devagar, evitar a culpa desnecessária e devolver espaço para que o corpo acompanhe a mente é fundamental para um regresso sereno às nossas rotinas. No fundo, setembro não é um teste à produtividade; é um convite para recomeçarmos com calma, no nosso ritmo. Quem regressa devagar, regressa melhor porque está a respeitar o seu ritmo de trabalho.
“Portugal já reconhece a saúde mental como fazendo parte integrante da saúde, mas ainda existem muitas pessoas que procuram ajuda tarde demais, muitas vezes, por vergonha e devido ao estigma associado”
Ao longo dos últimos meses tem dedicado uma atenção muito especial à forma como comunicamos nas relações pessoais. O que é que a prática lhe tem mostrado sobre os conflitos que nascem, não da falta de afeto, mas da dificuldade em conversar, ouvir ou estabelecer limites?
A maioria dos conflitos nas relações não nascem da falta de afeto. Nascem da dificuldade em conversar com a pessoa que está connosco. Comunicar com verdade, ouvir para compreender, isto é, sem se defender de imediato e estabelecer limites sem medo de perder o outro são pontos importantes para uma relação saudável.
O amor existe, mas a comunicação não o acompanha. Quando isto acontece, pequenos silêncios tornamse barreiras na relação, pequenas irritações tornamse explosões, e gestos que eram apenas tentativas de proteção passam a ser interpretados como afastamento. No fundo, a prática mostra que a maioria dos conflitos nasce da ausência de diálogo. Existe muita dificuldade em comunicarmos o que estamos a sentir, o que precisamos e o que esperamos da outra pessoa. Não fomos ensinados a dizer “isto magoa-me”, “preciso disto”, “não consigo desta forma”, “aqui é o meu limite”. Mas a comunicação é fundamental em qualquer relação.

Muitas vezes, é o nosso corpo que começa a falar por nós através de tensão muscular, impaciência, cansaço, distância ou discussões constantes que não representam o que sentimos, apenas o que já não conseguimos aguentar mais. O afeto continua presente, mas não há uma forma da mensagem chegar ao outro. A falta de escuta ativa faz com que cada pessoa ouça apenas a sua própria dor, e não a intenção do outro, gerando malentendidos que poderiam ser evitados com presença.
Foi precisamente dessa reflexão que nasceu o curso Fala Comigo. Em que necessidade concreta das pessoas sentiu que este projeto podia fazer a diferença e o que espera que cada participante leve consigo no final dessa experiência?
O curso Fala Comigo nasceu da necessidade das pessoas terem um guia prático com ferramentas para comunicar com clareza nos relacionamentos. O objetivo é que as pessoas aprendam a dizer o que sentem sem magoar, sem reprimir as suas emoções e sem discutir à toa mesmo que já tenham tentado tudo. Portanto este, produto é ideal para: casais que discutem sempre sobre o mesmo assunto sem chegar a lado nenhum; pessoas que engolem emoções e depois explodem ou fecham-se completamente; quem sente que o parceiro ‘não ouve’ ou ‘não percebe’ o que estão a sentir; quem quer aprender a pedir o que precisa sem parecer exigente ou dramático e para pessoas que saem de discussões a sentir que ‘perderam’ ou que foram mal-entendidas. Desta forma, espera-se que cada um dos participantes coloque em prática as ferramentas que aprendeu de modo a comunicar com a sua cara-metade de forma leve, clara e sem indiretas.
Numa das nossas entrevistas partilhou a vontade de dar vida a vários projetos que tinha na gaveta, este ano. Que caminho foi sendo feito desde então e de que forma esses projetos contribuíram para a evolução do seu trabalho?
Ao longo destes meses, o caminho tem sido muito mais do que operacional, tem sido profundamente estratégico. Cada projeto que está prestes a sair da gaveta nasceu de uma necessidade real das pessoas que acompanho e de uma vontade minha de levar a saúde mental para fora do consultório, para formatos que permitam continuidade, profundidade e acessibilidade a todos. Este processo obrigou-me a olhar para a marca com outros olhos: perceber onde quero estar, que impacto quero ter e que tipo de experiência quero proporcionar a quem confia no meu trabalho.
As mudanças internas que estamos a fazer não são apenas estruturais; são evolutivas. Estão a permitir que a marca Eduarda Figueiras cresça de forma sólida, com propósito e com uma visão clara de futuro. Sinto que estes projetos representam uma nova fase, mais madura, mais consciente e mais alinhada com aquilo que acredito ser o papel da Psicologia hoje: educar, transformar e criar espaços seguros onde as pessoas possam crescer. No fundo, cada lançamento é uma extensão da missão que me acompanha desde o início: levar a saúde mental mais longe, com rigor, humanidade e impacto real. Posso ainda adiantar que este ano ainda vão ser realizados dois grandes lançamentos, sendo que um deles é já no mês de outubro.
“Existem cada vez mais empresas que começam a perceber que a saúde mental dos colaboradores é fundamental para a produtividade”
Para terminar, num mês que simboliza novos começos para tantas pessoas, que mensagem gostaria de deixar a quem regressa agora ao trabalho, à escola ou simplesmente às exigências de uma nova etapa da vida?
Setembro é sempre o mês de viragem em que as férias terminam e voltam as atividades do dia a dia, ou seja, após um período de descanso, a vida começa novamente a pedir mais de nós, mas também nos oferece a possibilidade de começar de novo. A mensagem que deixaria a quem regressa agora ao trabalho, à escola ou simplesmente às exigências de uma nova etapa é: comecem com calma, no vosso ritmo, não confundam recomeço com aceleração. Não queiram fazer tudo de uma só vez. O corpo ainda “está sob efeito das férias”, num ritmo mais lento, e, por isso, precisa de tempo para reencontrar o método de trabalho. Setembro não exige perfeição; exige transição.

É um mês em que é preciso, muitas vezes, ajustar o ritmo, redefinir prioridades e voltar a ocupar o próprio lugar na vida com consciência, não com pressa ou perfecionismo. Diria também que este é o momento ideal para praticar limites não como barreiras, mas como formas de proteger energia, presença e saúde mental. Regressar ao dia a dia não tem de ser sinónimo de sobrecarga. Pode ser um regresso mais tranquilo, mais gentil, mais alinhado com aquilo que realmente importa. E, acima de tudo, deixaria a ideia de que cada pessoa tem o direito de regressar ao seu ritmo começando com atividades mais leves nos primeiros dias de trabalho, com pausas pelo meio para ganharem energia, alongar e levar os dias com mais calma e claramente momentos de autocuidado (físico, emocional) para que possam cuidar de vocês mesmos.
Tirem um pouco do vosso dia para fazer uma atividade física, ou apenas desligar do ruído do dia e conectarem-se convosco, por exemplo, através de uma meditação. É também importante que uma boa higiene do sono que muitas vezes é alterada nas férias e uma alimentação saudável. Fazer o básico bem feito é meio caminho andado para setembro se iniciar de forma tranquila e acabar com muitas conquistas.




