Saúde e Bem-Estar

Compreender antes de mudar

A saúde mental exige cada vez mais informação, mas também capacidade para distinguir aquilo que é conhecimento científico de interpretações simplificadas sobre o comportamento humano. Com um percurso anterior ligado ao coaching e ao desenvolvimento pessoal, Daniela Santos encontrou na formação em Psicologia Clínica e da Saúde um enquadramento científico que lhe permitiu aprofundar a compreensão do comportamento humano e dos processos psicológicos, iniciando agora o seu percurso profissional na Psicologia.

Ao longo de vários anos de experiência em coaching, acompanhou pessoas em processos de mudança, tomada de decisão e definição de objetivos. Essa experiência acabou por revelar-lhe também os limites de uma intervenção centrada apenas no desenvolvimento e na ação. “Senti necessidade de trabalhar a partir de um enquadramento mais estruturado e sustentado pela evidência científica”.

Para Daniela Santos, uma boa intervenção começa pela relação que se estabelece entre a pessoa e o profissional. Escutar sem julgamento, respeitar a história de vida e procurar compreender são elementos essenciais, mas o objetivo passa também por ajudar a pessoa a perceber o que sente, pensa e faz, identificando padrões e criando novas possibilidades de resposta.

“Uma boa intervenção é aquela que é colaborativa”, defende, sublinhando que as hipóteses e estratégias devem ser confrontadas com a experiência de quem procura apoio. O acompanhamento deve ainda promover autonomia: “não apenas ajudar a pessoa a lidar com aquilo que a trouxe ao acompanhamento, mas também contribuir para que desenvolva recursos que lhe permitam, quando terminar o acompanhamento, enfrentar futuras dificuldades com maior autonomia”.

Num momento em que a saúde mental ganhou maior espaço no discurso público, alerta para o risco de simplificar experiências humanas complexas. “Nem toda a ansiedade é uma perturbação, nem todas as dificuldades resultam de um trauma e um comportamento isolado não nos permite definir uma pessoa”. Para si, comunicar conhecimento de forma acessível deve andar sempre a par do rigor científico.

É também neste ponto que considera importante distinguir psicologia e coaching. Embora existam ferramentas comuns, os objetivos e o enquadramento das duas áreas são diferentes. O coaching está mais direcionado para objetivos, planeamento e ação. Quando existe sofrimento psicológico significativo, sintomatologia persistente ou impacto relevante no funcionamento da pessoa, a intervenção psicológica deve assumir prioridade. “Partilhar algumas ferramentas não significa que as duas áreas sejam equivalentes”.

Na opinião de Daniela Santos, compreender o comportamento é muitas vezes mais importante do que simplesmente tentar eliminá-lo. A procrastinação, por exemplo, pode ser “a parte mais visível, a ponta do iceberg” de processos emocionais e cognitivos mais complexos. Por isso, uma das perguntas que considera mais relevantes não é apenas “porque é que faço isto?”, mas “que função tem essa forma de agir e porque é que continua a ser necessária hoje?”.

A mesma perspetiva aplica-se à história de cada pessoa. O passado pode ajudar a explicar comportamentos e estratégias que foram úteis noutras fases da vida, mas não tem de determinar o futuro. “O passado influencia-nos, mas não precisa de decidir tudo aquilo que fazemos a seguir”.