Saúde e Bem-Estar

Uma profissão que se constrói com responsabilidade

Nem sempre é fácil explicar que a Psicologia não promete finais felizes ou soluções imediatas. É a partir desta consciência que Andreia Azevedo, Psicóloga e Coordenadora Clínica da PSIVALOR, nos dá esta entrevista. Com 22 anos de experiência, traz consigo a certeza de que não se pode evitar a dor, mas que é possível ajudar cada pessoa a encontrar novas formas de a aceitar e ultrapassar.

Escolher a Psicologia é, de certa forma, escolher estar próximo do outro nos momentos em que mais precisa de ser compreendido. Quando enveredou por este caminho, o que imaginava poder fazer pelas pessoas através desta profissão?

Quando escolhi Psicologia, há 27 anos, sabia que queria compreender o ser humano e estar próxima das pessoas nos momentos difíceis. Ao longo destes anos, fui percebendo que ajudar significa cria condições para que cada pessoa possa compreender melhor o que lhe acontece, recuperar recursos, fazer escolhas mais conscientes e reencontrar possibilidades.

A Psicologia ensinou-me que não há duas pessoas iguais e que não existem respostas universais para o sofrimento humano. Há ciência, conhecimento técnico e modelos de intervenção que devemos respeitar, mas há também uma pessoa concreta, com uma história, relações, circunstâncias e recursos próprios. É essa conjugação entre ciência e humanidade que continua, tantos anos depois, a fazer sentido para mim.

Ser psicóloga é, muitas vezes, estar perante aquilo que não se consegue dizer. O que considera mais desafiante e, simultaneamente, mais transformador, no exercício desta profissão?

Talvez o mais desafiante seja permanecer quando seria mais fácil tentar aliviar. Na Psicologia Clínica não podemos retirar a dor ou acelerar processos. O nosso papel é conseguir estar verdadeiramente presentes perante aquilo que dói. Há sofrimento que chega através do silêncio, do corpo, das relações ou de comportamentos que, à primeira vista, parecem não fazer sentido. E é preciso escutar para além do que é imediatamente visível, sem julgamentos e interpretações precipitadas. O mais transformador acontece quando esse espaço de compreensão permite à pessoa começar a olhar para si de uma forma diferente.

A forma como é abordada a saúde mental mudou muito nos últimos anos. Sente que também se tornou mais natural procurar ajuda?

Houve uma mudança muito significativa. Hoje, existe maior abertura para falar de saúde mental e, sobretudo, uma maior legitimidade em reconhecer que o sofrimento psicológico pode beneficiar de acompanhamento especializado. Mas penso que ainda temos um caminho importante a percorrer.

Tornar natural a procura de ajuda não pode significar transformar qualquer dificuldade da vida numa doença. Precisamos de saber distinguir sofrimento, dificuldades de adaptação e perturbação psicológica, e essa distinção exige conhecimento, avaliação clínica e responsabilidade profissional. Também me preocupa que a crescente visibilidade da saúde mental tenha trazido consigo uma enorme quantidade de informação, nem sempre rigorosa, e de propostas que se apresentam como psicológicas sem necessariamente o serem.

A PSIVALOR reúne diferentes áreas de intervenção, contando também com Psiquiatria e Pedopsiquiatria. Quando diferentes especialidades olham para a mesma pessoa, o que se ganha com este diálogo clínico e de que forma pode uma abordagem integrada fazer a diferença?

É precisamente o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento que permite compreender melhor aquilo que está a acontecer e encontrar a resposta mais adequada. Na PSIVALOR valorizamos muito essa articulação. Psicologia, Psiquiatria e Pedopsiquiatria têm competências e campos de intervenção profundamente complementares. Uma abordagem integrada não significa que todas as pessoas necessitem de todas as especialidades; significa que, quando essa complementaridade é necessária, existe comunicação, referenciação e capacidade de pensar o caso em conjunto.

Quão importante é garantir que se está perante um profissional devidamente qualificado e certificado? Que riscos existem quando essa confiança é entregue a quem não tem a formação necessária?

É absolutamente essencial. Quando alguém procura ajuda psicológica está num momento de vulnerabilidade e entrega ao profissional aspetos íntimos da sua vida. Essa confiança implica uma enorme responsabilidade. Ser psicólogo não é apenas saber escutar ou ter facilidade em compreender pessoas. Exige formação científica específica, competências técnicas, princípios éticos e deontológicos e uma prática profissional sujeita a regulação.

O risco não está apenas numa intervenção não produzir resultados. Uma intervenção inadequada pode atrasar o acesso aos cuidados de que a pessoa realmente necessita, reforçar interpretações erradas sobre o seu sofrimento ou até contribuir para o agravar. Mas esta exigência não deve ser dirigida apenas a quem está fora da profissão. Também nós, psicólogos, temos a obrigação de questionar permanentemente a qualidade daquilo que fazemos, atualizar conhecimento e fundamentar as nossas práticas na melhor evidência científica disponível.

Neste Dia Nacional do Psicólogo, convidamo-la a refletir: o que ainda falta ainda acontecer para que a profissão seja verdadeiramente valorizada?

Hoje fala-se mais de saúde mental, compreende-se melhor a importância do bem-estar psicológico e os psicólogos estão presentes num número crescente de contextos. Mas reconhecimento e valorização não são exatamente a mesma coisa. Valorizar verdadeiramente a Psicologia implica garantir condições para que os psicólogos possam exercer com qualidade, dignidade e responsabilidade. Implica reconhecer a diferenciação e a especialização profissional, criar condições de acesso à Psicologia para quem dela necessita e assegurar uma regulação capaz de proteger simultaneamente os cidadãos e a própria profissão. Acredito, porém, que uma parte dessa valorização depende de nós, psicólogos.

Não podemos pedir à sociedade que reconheça o valor da Psicologia se não formos exigentes com a qualidade das nossas próprias práticas. Precisamos de investir continuamente em formação, supervisão e intervisão, promover uma cultura de partilha entre pares e manter um compromisso inequívoco com a evidência científica e com a ética.

Gostaria de ver uma profissão cada vez mais unida em torno destes princípios, capaz de discutir as suas fragilidades sem receio e de assumir que regular e exigir não diminui ninguém — fortalece-nos coletivamente.

“Não podemos pedir à sociedade que reconheça o valor da Psicologia se não formos exigentes com a qualidade das nossas próprias práticas”